RESENHA SOME REFLECTIONS ON THE ORIGINS OF MBSR – Parte 3

SOME REFLECTIONS ON THE ORIGINS OF MBSR, SKILLFUL MEANS, AND THE TROUBLE WITH MAPS | Jon Kabat-Zinn

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OS PRIMEIROS ANOS

Com o objetivo de juntar essas duas epistemologias da ciência do dharma, eu me senti compelido a apontar no início dos anos do MBSR a ligação etimológica óbvia das palavras medicina e meditação e articular para as audiências médicas, seus significados (Bohm 1980; Kabat-Zinn 1990).

Nesse contexto, senti que seria útil adotar a terminologia já estabelecida de auto regulação (Shapiro 1980) e descrever a meditação operacionalmente, em termos de auto regulação da atenção (Goleman e Schwartz, 1976). A partir daí, era senso comum, se não axiomático, de mostrar que a maior parte do tempo, mal estamos presentes em nossos próprios corpos e vidas e na forma como eles estão se desenvolvendo. Por isso, não cultivamos os recursos interiores disponíveis que podem ser de grande benefício para nós… tais como os aspectos altruístas, sábios, exigentes e encarnados da própria consciência.

A intenção e abordagem do MBSR nunca foi de explorar, fragmentar ou descontextualizar o dharma, mas sim, o de contextualizá-lo dentro dos quadros da ciência, medicina (incluindo psiquiatria e psicologia) e assistência médica, para o qual ele seria extremamente útil às pessoas que não podiam ouvi-lo ou acessá-lo através das portas mais tradicionais do dharma; fossem eles médicos, pacientes, administradores hospitalares ou companhias de seguros.

Porque a nomeação é muito importante para a forma como as coisas são compreendidas e aceitas ou não, eu senti que a clínica precisava ser identificada por um termo amplo o suficiente para conter a multiplicidade de elementos chave, isto seria um papel essencial para um programa clínico bem sucedido no clima cultural de 1979.

A Redução do Estresse parecia ideal, já que praticamente todo mundo poderia se relacionar com isso instintivamente, apesar de que “redução” é um termo impróprio. O termo estresse também tem o elemento do sofrimento embutido. Além disso, já havia uma produção literária crescente relacionada com psicofisiologia da reatividade ao estresse e regulação da dor (Goleman e Schwartz, 1976; Melzack e Pery, 1975; Schwartz, Davidson e Goleman 1978).

Mas como mais de um participante no MBSR, disseram na ocasião depois de algumas semanas do programa:

“Isto não é redução do estresse. Esta é minha vida toda!”

Novas evidências de fato, demonstraram que o estresse crônico, exerce potencialmente efeitos deletérios sobre o cérebro, sobre o comportamento e sobre as habilidades cognitivas em toda a vida, com janelas especiais de elevada vulnerabilidade (Lupien et al. 2009). O estresse crônico também foi demonstrado por Nobel Laureado de Elizabeth Blackburn, que aumentava a taxa de degradação dos telômeros nas extremidades de todos os nossos cromossomos, e assim, acelera o envelhecimento biológico no nível celular e subcelular, levando a um encurtamento significativo do tempo de vida (Epel et al., 2004)

Cada vez mais senti que algo mais era necessário para diferenciar a nossa abordagem, de muitos programas que também usavam o termo redução do estresse ou gestão do estresse, mas que não tinham nenhum fundamento no dharma. Então, no início de 1990, parecia sensato começar a chamar formalmente o que estávamos fazendo de Redução do Estresse baseado em Mindfulness.

Os trabalhos iniciais sobre MBSR não apenas citavam suas raízes Theravadas (Komfield 1977; Nyanaponika 1962), mas também suas raízes Mahayana – tanto nas tradições Zen do Soto (Suzuki 1970) e Rinzai (Kapleau 1965) e, por linhagem, as derivações chinesas e coreanas – bem como algumas correntes das tradições yogues (Thakar 1977) incluindo Vedanta (Nisargadatta 1973), e os  ensinamentos de J Krishnamurti (Krishnamurti 1969, 1979) e Ramana Maharshi (Maharsi 1959).

Meu primeiro professor Zen, Seung Sahn, era coreano e ensinou as abordagens Soto e Rinzai, incluindo o uso amplo e o valor do Koan e trocas de “combate Dharma” à base de Koan, entre professor e aluno (Seung Sahn, 1976). Isto contribuiu em parte, para o elemento de trocas interativas, momento a momento, na sala de aula, entre professor e participantes, onde eles exploram juntos e às vezes desafiando detalhes da experiência de primeira pessoa direta, da prática e suas manifestações na vida cotidiana. Esta característica saliente do MBSR e outras intervenções baseadas em Mindfulness, veio a ser chamada de “Inquiry” ou dialogue (Kabat-Zinn 2005d; Ocok 2007; Williams et al 2007).

Nomeando o que estávamos fazendo na clínica de redução do estresse baseada em Mindfulness, levantou-se uma série de perguntas. Uma delas seria a prudência de usar a palavra Mindfulness intencionalmente como um termo genérico para descrever o nosso trabalho e para vinculá-lo explicitamente com o que eu sempre considerei um dharma universal coextensivo, se não, idêntico, com os ensinamentos do Buda, o Buddharma. Por “termo genérico” quero dizer que ele é utilizado em certos contextos como um termo alternativo para o dharma todo, que é usado para mostrar vários significados e tradições simultaneamente, não para enganar e confundir diferenças reais, mas como meios potencialmente hábeis para trazer as correntes da vida, a compreensão encarnada do dharma e da medicina clínica juntas.

Sempre sentimos que os detalhes a respeito do uso da palavra Mindfulness em contextos diferentes em que estávamos implantando, poderia ser trabalhados mais tarde por acadêmicos e pesquisadores que conheciam esta área, e estavam interessados em fazer tais distinções e resolver questões importantes que poderiam ser confundidas e misturadas pela desconsideração inicial, mas intencional ou passando por cima das nuances potencialmente importantes, filosóficas e históricas.

Questões culturais que ainda podem ser mostradas por serem cruciais para uma compreensão mais profunda da mente e da sua relação com o cérebro e o corpo. Bem como, uma compreensão mais profunda do dharma, conforme o objeto é escavado tão elegantemente e eloquentemente nos trabalhos acadêmicos, numa edição de várias perspectivas budistas clássicas.

Estas edições especiais, seja talvez apenas um primeiro passo para um diálogo necessário para lembrar a todos nós da necessidade de fidelidade e imaginação, para promover o trabalho do dharma no mundo em um círculo crescente de configurações e circunstâncias, incluindo, negócios, liderança, educação, etc…

Nos primeiros anos, eu achei um grande apoio para a direção em que eu estava indo, nos escritos de Nyanaponika Thera (1962) e, em particular, o que eu pensei na época, e ainda encontro como um encapsulamento extremamente elegante da centralidade da Atenção Plena. Em suas palavras Mindfulness é:

“A chave mestra infalível para conhecer a mente, e é portanto, o ponto de partida; 

A ferramenta perfeita para moldar a mente, e é, portanto, o ponto focal;

A manifestação elevada da liberdade conseguida pela mente, e é assim, o ponto culminante.”

Visto desta forma, a atenção Plena é a vista, o caminho e o fruto, tudo em um.

Também senti que era mais importante descrever a atenção plena em considerável detalhe nos primeiros trabalho científicos sobre MBSR e citar suas várias origens em várias tradições contemplativas, ao invés de oferecer uma definição definitiva e concisa.

O que precisávamos era, em termos práticos, uma ênfase instrumental e operacional sobre o que estava realmente envolvido no gesto de sensibilização, usando gentilmente a frase elegante de Francisco Varela (Depaz, Varela e Vermesch, 1999; Varela, Thompson e Rosch, 1991).

Assim, diversas variantes de definições muito citadas, foram expressas em momentos diferentes:

(A) prestando atenção numa determinada maneira, intencionalmente, no momento presente e sem julgamentos (Kabat-Zinn 1994);

(B) a consciência de surge a partir da atenção prestada, intencionalmente, no momento presente e sem julgamentos (2005e Kabat-Zinn).

Não-julgamento não significa implicar para novato praticante que existe algum estado ideal em que julgamentos já não se aplicam. Pelo contrário, ele ressalta que haverá muitos julgamentos e opiniões decorrentes, momento a momento. Não-julgamento é o não julgar, avaliar ou reagir a qualquer um dos quais surgirem, com exceção reconhecendo no momento em que surge, se é agradável, desagradável ou neutra (a segunda fundação ou criação da atenção plena).

Isto pode conduzir, naturalmente, para a descoberta que a escolha libertadora em qualquer momento de se apegar e se auto identificar ou não, é sempre disponível, sempre uma opção, e talvez uma nova descoberta aconteça de forma espontânea, través da qualidade liberativa da pura consciência, sem esforço qualquer.

Por esta razão, e uma afinidade pessoal com as várias correntes de Chan e Zen, houve desde o início do MBSR, ênfase na não dualidade e a dimensão não-instrumental da prática e, então, sobre o não fazer, não-esforço, não-saber, e não-apego aos resultados, mesmo com resultados positivos para a saúde; e na investigação do nome, da forma, e do mundo das aparências, de acordo com os ensinamentos do Sutra do Coração, que destacam a natureza vazia até mesmo das Quatro Nobres Verdades, do Caminho Óctuplo, e da própria libertação, mas mesmo assim, não são nem negativas e nem positivas, mas um caminho do meio (ver Kabat-Zinn 2003, 2005f; Wallace e Hodel 2008).

O MBSR foi fundamentado em uma perspectiva não-autoritária e não-hierárquico, que permitiu clareza, compreensão e sabedoria, o que podemos dizer que é essencial para o dharma, e para  surgir intercâmbios entre instrutor e participantes, dentro da prática de meditação do participante como guiado pelo instrutor.

Um exemplo concreto da orientação do caminho do meio em MBSR pode ser sentido como o instrutor relaciona-se com os participantes e com todo o Programa. Neste processo, fazemos um esforço para tratar cada participante como um ser humano inteiro, em vez de como um paciente ou um diagnóstico, ou alguém que tem um problema que precisa ser consertado.

MBSR é aterrado completamente em uma abordagem e orientação não-fixa. É menos sobre curar e mais sobre melhorar, o que defino como chegar a um acordo com as coisas como elas são, em plena consciência. Muitas vezes vemos que a cura acontece por conta própria ao longo do tempo, como se alinhássemos com o que há de mais profundo e melhor em nós mesmos e descansamos atenciosamente de um momento ao outro, sem um afeto ou resultado.

O fato de que fazendo desta forma, com consistência e estabilidade é realmente o trabalho mais difícil do mundo para os seres humanos, não o torna menos atraente ou importante. Podemos dizer que, se a atenção plena em algum sentido se tornar o nosso modo padrão, em seguida o seu oposto, falta de atenção ou desconhecimento, certamente manterá esse papel.

O resultado inevitável é passar nossos grandes momentos em um modo reativo, robótico, como um piloto automático, que tem o potencial a consumir e colorir toda a nossa vida e praticamente todos os nossos relacionamentos. Uma das principais descobertas de MBSR é que nossos pacientes percebem isso em formas dramáticas e tornam-se motivados para viver uma vida de maior consciência de que se estende muito além das oito semanas, em que estão no programa.

MBSR e outras intervenções baseadas em atenção modeladas sobre ele, são fundamentais em um engajamento participativo… convidamos o paciente a participar de seu próprio movimento em direção a maiores níveis de saúde e bem-estar, a partir da realidade da circunstância presente, seja ela qual for.

Isto é apenas para os convidados, e depende da disposição do paciente para explorar os recursos profundos inatos que temos em virtude do ser humano, as capacidades de aprender, crescer, curar e transformar inerente na cultivação sistemática da atenção em si e suas sequelas. Isto é a medicina participativa na sua melhor forma: a equipe de saúde traz seus recursos para a mesa, e o paciente/participante traz o dele também (Kabat-Zinn 2000).

Nós despejamos energia, na forma de atenção para o que está “certo com a gente” no momento presente (o que requer reconhecimento de que pode realmente ter “algo certo” com a gente) e deixamos que o resto do hospital e da equipe de saúde, cuidar do que é “errado”.

É uma divisão digna de trabalho, é um bom lugar para iniciar o processo de tentar recuperar a dimensionalidade plena do ser e incorporando-a na vida cotidiana, que é uma parte íntima do currículo da prática.

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Tradução livre | Parte 3 – Adriana Cardoso

Fonte: Contemporary Buddhism, Vol. 12, No. 1, May 2011 ISSN 1463-994 7print/1476-7953 online/11/010281-306 q 2011 Taylor & Francis DOI: 10.1080/14639947.2011.564844

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