Sono e Insônia | Considerações psicanalíticas

30São muitos os distúrbios que tornam insatisfatório o descanso noturno. Conforme estatísticas e estudos direcionados ao tema, é cada vez maior o número de pessoas que apresentam algum distúrbio relacionado ao sono, sendo a insônia a principal queixa entre eles.

A insônia é uma diminuição total ou parcial da quantidade habitual de horas de sono ou da sua qualidade durante a noite.

As ocasionais noites mal dormidas, em muitas circunstâncias, não levam as conseqüências severas. Já a insônia persistente muitas vezes tem efeitos prejudiciais profundos para a vida da pessoa.

Os insones, frequentemente, queixam-se de um funcionamento diário prejudicado, incluindo fadiga, irritabilidade, distúrbios do humor, concentração diminuída, reduzindo o desempenho no trabalho e sonolência diurna.

Muitos recorrem à medicação ou a bebidas alcoólicas, para tentar dormir à noite. Porém, estes procedimentos podem trazer prejuízos para a qualidade do sono do indivíduo.

Insônia pode ser tanto a dificuldade de iniciar o sono como de manter o sono ou mesmo a percepção de sono não reparador. O número de horas de sono pode não estar reduzido, mas a maioria dos insones sente fadiga, cansaço fácil, ardência nos olhos, irritabilidade, ansiedade, fobias, incapacidade de concentrar-se, dificuldades de atenção e memória, mal-estar e sonolência

Para alguns especialistas, o diagnóstico de insônia requer a existência dessas perturbações do bem-estar no dia seguinte, além da dificuldade com o sono. Surpreendentemente, porém, alguns pacientes que relatam passar a noite em claro, dizem-se bem dispostos de dia. Esses são classificados como insones “paradoxais”.

A insônia pode estar associada a distúrbios psiquiátricos, enfermidades neurológicas, alterações do sistema orgânico ou até mesmo  motivos psicológicos.

Ao pensarmos na vida cotidiana, muitos são os motivos desencadeadores de noites mal dormidas: estresse no trabalho, desemprego, dificuldades financeiras, crises conjugais, etc.

Nestes casos poderíamos dizer que a insônia seria um reflexo dos conflitos que estão sendo vivenciados pelo sujeito em determinado momento de sua vida; a  insônia surge como um sintoma,  como uma indicação de que algo não está bem

Sob o ponto de vista psicanalítico, todo  sintoma é uma forma de expressão do sofrimento do indivíduo e o mesmo só poderá ser compreendido a partir da história de vida de cada um. A tarefa do tratamento analítico, não é a de “curar” o sintoma; mas sim, favorecer ao paciente o reconhecimento e as causas do mesmo.

SOBRE O SONO…

O sono é um estado de repouso normal e periódico, que no homem se caracteriza pela suspensão das capacidades perceptivas e motoras de modo consciente e voluntário. O ato de dormir é necessário, uma vez que além de eliminar a sonolência, contribui para que o organismo se reequilibre, reparando as suas forças e adquirindo mais vitalidade para o novo período de vigília. Esse reequilíbro não visa exclusivamente os aspectos somáticos porque, quando sonhamos, de forma compensatória, estamos promovendo o reequilibro psíquico.

A neurofisiologia do sono nos permite analisar as ondas cerebrais e a dinâmica do ato de dormir. No comportamento do sono de uma pessoa normal, nos períodos REM (sigla inglesa que significa rápidos movimentos do globo ocular), o sono é profundo, com uma completa paralisia de toda musculatura, queda da temperatura e muita insensibilidade para a senso-percepção, mas paradoxalmente, devido às produções oníricas, que acontecem nesta fase, as ondas cerebrais revelam uma intensa atividade, muito próxima da vigília, o coração se acelera, a respiração fica variável e os olhos movem-se como os de uma pessoa acordada.

Além da fase REM, temos 4 estágios de sono, onde os estágios 3 e 4 referem-se ao sono mais profundo e que acontecem menos vezes do que os estágios 1 e 2.

Temos, em média, cinco períodos REM, sugerindo que toda noite de sono, vivenciamos os sonhos.

Muitos estudiosos afirmam que os sonhos têm duração de 15 segundos a 5 minutos que não são necessariamente lembrados.

SOBRE OS SONHOS…

A formação do sonho requer a utilização de pensamentos oníricos pertencentes ao Pré-consciente ao qual o desejo terá que se articular, mas a força responsável por sua produção, segundo Freud, é um desejo do sistema Inconsciente. Essa idéia indica o inconsciente como o responsável que provê a quantidade, a energia psíquica, indispensável formação dos sonhos.

O conteúdo latente do sonho, é constituído pelos pensamentos oníricos. O trabalho do sonho transforma esses pensamentos em conteúdo manifesto, substituindo-os por uma cena visual, censurando ou modificando-os através dos mecanismos de deslocamento e condensação.

A interpretação dos sonhos, busca refazer o trabalho do sonho, do conteúdo manifesto ao latente.

A premissa de que o sonho seria uma realização de desejo , começa a ser reformulada em 1920, quando Freud percebe o problema dos sonhos traumáticos. Estes, por reconduzirem repetidamente o sonhador à situação de sua vida que lhe tinha sido a mais insuportável, eram o obstáculo para que se pudesse considerar a vida psíquica como inteiramente submetida ao princípio do prazer.

Os sonhos de angústia, que costumam levar ao despertar, foram então considerados por Freud como falhas, como fracassos da elaboração onírica em cumprir sua missão básica que é justamente permitir o sono, satisfazer o desejo de dormir.

Neste caso, os sonhos tendem a reconduzir o sonhador para a situação que gerou a neurose traumática, colocando-o a vivência da angústia que sinaliza um perigo, para algo que podemos caracterizar como traumático e desorganizador, vindo do real, e que só pode ser vivido em uma perspectiva de passividade. Nesse caso, o sonho falha em sua função de manter o sono e é interrompido por uma crise de angústia. Isso quando ainda é possível dormir…

“Saio do sono como  de uma batalha travada em  lugar algum…”

Para Freud, o sonho é o guardião do sono, ele próprio realiza o desejo do sujeito de dormir.

Mas no caso da insônia, não estaria o guardião em posição de vilão?

Embora alguns sonhos não sejam lembrados, o sono implica o sonhar e o sonhar está relacionado ao material da vida de vigília e conteúdos inconscientes ao qual não temos como controlar.

Sono e sonho são experiências fundamentalmente regressivas e nesta posição podemos dizer que o sujeito está completamente vulnerável ao seu campo psíquico.

Considerando o “conflito real” a que o indivíduo está submetido, estaria a insônia relacionada ao medo de adormecer?

Podemos pensar na insônia como um medo de sonhar?

Além da busca pelo prazer, podemos dizer que o medo também influencia o sonhar e consequentemente o “adormecer”?

A insônia quando não possui nenhuma causa neurológica, pode ser entendida como um sintoma.

Sob o ponto de vista psicanalítico, todo  sintoma é uma forma de expressão do sofrimento do indivíduo e o mesmo só poderá ser compreendido a partir da história de vida de cada um.

O sintoma possui certa durabilidade, provoca uma inércia ao paciente diante dos conflitos. É uma tentativa da satisfação pulsional que insiste e se repete diante das frustrações, provocando o sofrimento.

A procura da análise se dá como um pedido para o alívio do sofrimento e a  tarefa do tratamento analítico, não é a de “curar” o sintoma; mas sim, favorecer ao paciente o reconhecimento e as causas do mesmo, possibilitando ao sujeito relacionar-se diferentemente com suas pulsões, desejos e frustrações.

Encerro com um poema, que parece retratar exatamente o “terror” a que está exposto o sujeito que sofre de insônia e que nos leva a pensar a insônia como o “medo do adormecer”.

 

MAU DESPERTAR

Saio do sono como

De uma batalha

Travada em

Lugar algum

Não sei na madrugada

Se estou ferido

Se o corpo

Tenho riscado de

Hematomas

Zonzo

Lavo  na pia

os olhos

donde ainda escorre

uns restos de treva

Ferreira Gullar

(agosto 1977)

 

Bibliografia:

FERRAZ, F. C.; Fuks, L. B. (orgs.) – A clínica conta histórias, São Paulo, Ed. Escuta, 2000, 260 p.

FREUD, S. – A interpretação dos sonhos [1900] in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980.

GANHITO, Nayra C. P. Distúrbios do sono. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.

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